domingo, 17 de julho de 2016

O que tenho do mundo é vento numa redoma de sabão. Não há verdade ou coerência possível que sustente o sentido da matéria num espaço/tempo invisível na cronologia da existência das coisas. Flutua, frágil e delicada, a pseudo consciência do que que sabemos que somos. E, embriagados em nossas certezas, dissolvemo-nos no instante em que, próximos a elas, estamos.


terça-feira, 12 de julho de 2016

Sonhei que você me procurava naquele jardim de árvores plantadas no tempo. Eram muitas. Uma para cada memória que eu tinha de você. Você me procurava e eu me escondia para te provocar. Eu sabia que você tinha pressa. Você corria chamando o meu nome como se fôssemos crianças numa quarta-feira qualquer. Eu sorria vendo você voar como um anjo com os pés no chão e o corpo frio que transmutava a paisagem à medida que a tocava com seus longos dedos de veludo branco. Você era cinza com dedos de veludo branco. Você era cinza e coloria de cinza tudo o que eu via ao redor de você. Você não queria mais brincar. Chamava o meu nome mas parecia cansada. Sentou-se no solo que te fazia árvore. Corri tentando te alcançar, dizendo “estou aqui”. Quis te abraçar, mas seus pés já eram raízes, seu corpo, terra. Restavam-me, apenas, seus olhos de bola de gude.

terça-feira, 31 de maio de 2016

A vida é uma sucessão de sonhos e desilusões. O que dela sai de concreto, é desejo de uma materialidade fugaz; forma possível que cristaliza aquilo que queremos eterno. Não há eterno. Há a transitoriedade que, muitas vezes, nos parece intolerável. Vivemos nesse meio termo, nesse espaço de mudança que tentamos organizar, nesse perder o que temos porque nada é nosso, nesse proteger o que não se protege ou planejar o que não depende de nós. A vida é um eterno regresso ao que nunca conseguimos superar.


sábado, 21 de maio de 2016

Clarice Lispector dizia que sua arte não precisava ser entendida. Era uma questão de sentir. Tocava ou não tocava. A arte de Renato Alvim, toca. Seus personagens parecem revelar o que, da tristeza, vemos belo. Olhares que não nos encontram, que olham mas não veem. São olhares para dentro de uma criatura de tinta carregada de existência humana. Alguns sofrem a falta de um passado que já não mais reconhecem. Outros, desanimados, vivem seus dias esperando um fim. Na tela, sentimos a chegada lenta da desilusão.

O homem com o bombo me conta a história de sua filha, única filha, desaparecida ainda jovem. Espera, há anos, sua visita. Dela, do marido, de seus filhos. Sentaria naquele velho sofá, o mesmo de sua infância, para escutar seus dias que ele não pôde acompanhar. Fecharia seus olhos, já tão cansados, e dormiria com sorriso nos lábios.

A mulher na praia não vê o mar. Sente sua fria brisa despenteando seus cabelos e permanece ali, imóvel e indiferente à imensidão do azul que acolhe. O que pensa esta mulher que parece deslocada no mundo? O que espera encontrar olhando para o lado oposto ao do desejo?

A criança, olha o gato brincando com uma bola de lã. Sua mãe arruma-lhe novamente o vestido, impecável, que ganhara horas antes. Mas a criança não percebe a mãe. O gato ainda brinca com a bola de lã.

Cada personagem parece deslocar-se para um universo íntimo e intenso, inacessível à superficialidade do corpo. A cena interrompe o fluxo do tempo, tornando o momento contínuo em sua estaticidade. Não há diálogo possível ou necessário.  Há o contato e o interesse em descobrir as histórias desses personagens que indicam ter vida própria. Seu criador, não mais ali está. Deu-lhes o necessário para continuarem sua própria trajetória que, hoje, parecem a minha em vidas outras que não pude viver. 





domingo, 15 de maio de 2016

Gosto das pausas. Aquelas que não anunciam a sua chegada. Momentos breves e despretensiosos que nos salvam da exaustão. Pode ser um convite, um olhar, uma gentileza. Pode ser o casal que desconheço, o vento na pele, uma bolha de sabão. Hoje, foi ele, o rapaz. Entre carros, motos e fúria, entre pressa, desânimo e dor, o rapaz fotografa a árvore. Sozinho, naquele instante, sente que o mundo todo cabe naquela pequena e insignificante pétala cor-de-rosa que o leva para a menor distância possível entre o que sabe de si e o que não cansa de buscar. É um flash. Uma experiência de felicidade que dura uma vida inteira num milésimo de segundo.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Era um dia como qualquer outro. Mas não para eles. Naquele dia, decidiram casar-se. Não houve pedido. Houve, apenas, uma declaração de amor. Naquele dia, disseram, um para o outro, que estavam juntos. Foi um entendimento. Uma compreensão. Foi como se assim, simplesmente, percebessem que a história de pouco mais de dez meses os tivesse conduzido para o que, para alguns, fosse conduzido em anos. Eles se admiravam. Sobre isso, não tinham dúvidas. Viam, um no outro, alguém que buscavam. E encontraram. Gostavam dos momentos juntos. Sobre isso, também, não tinham duvidas. As horas, os dias, as semanas eram alimento para as horas, os dias e as semanas que estavam por vir. Mas, naquele momento, alguma coisa aconteceu. Ele entendeu o que ela dizia. Ele sentiu o que ela sentia. Foi quando ele percebeu que não estava mais sozinho. Ele tinha , ao lado dele, uma companheira, a companheira dele. E ela, percebendo a descoberta, entendeu que nada poderia ser mais importante do que estarem juntos. Eram apenas eles. E ninguém mais. O que importava, o que realmente importava, estava acontecendo naquele instante. Não havia mais por que esperar. Decidiram casar-se. A cerimônia não foi planejada. Aconteceu. O que eles precisavam, tinham: champagne, amor e....um padre. Ele e ela sentados, um a frente do outro, planejando a felicidade. O padre, colarinho desabotoado, comendo camarão. Não se falaram, o casal e o padre. Mas, naquele momento, foram abençoados por um deus que nem mesmo eles sabiam se acreditavam. E naquele almoço, que podia ser um almoço como qualquer outro, estava declarado: eram, agora, marido e mulher.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O poeta Aidenor Aires disse, num de seus versos, que não se acostumava ao morrer cotidiano das coisas. Nisto, somos parecidos. Qualquer traço ou sinal que me traga esta certeza, pode provocar, em mim, sentimentos que parecem ser os únicos que tenho. Pode ser um fio de cabelo branco, um jeito de andar, uma folha seca, uma ponta de lápis quebrada. Pode ser uma borboleta no para-brisas, uma luz queimada, um copo vazio, uma ruga profunda. Mas, de todos eles é, claro, a própria morte, o sinal mais forte e evidente. O mais radical. Falo sobre a morte física. O corpo gelado. Os olhos fechados. O desaparecimento. Quando vem, não há quem me console. Porque sinto-a inteira em mim. Sinto-me quase morta também. E o pedaço de vida que me compõe torna-se a consciência de uma inadequação espaço/tempo que não consigo assimilar. Há dois dias, morri mais uma vez. Ela se chamava Jennifer. Uma companheira de trabalho. 35 anos. Coração. Nesses dois dias conheci uma mulher que, em dois anos de convívio, não existia para mim. Foram inúmeros os relatos amorosos e saudosos que destacavam seu caráter, sua forma de viver a vida, seus valores, seus desejos. Quanto mais eu a conhecia, mais eu parecia conhecer o mundo. Porque ela acabou se tornando o limite que se impõe entre eu e qualquer desconhecido e a semelhança na beleza que temos todos enquanto sujeitos da nossa existência ao olhar do outro.

terça-feira, 22 de março de 2016

Quando acordo, dói um pouco. As manhãs sempre começam antes da hora. É como se se o sono fosse um cochilo de uma noite inteira. Não durmo. Apenas vou e volto, resistindo à entrega do tempo que preciso guardar.

domingo, 13 de março de 2016

Hoje, não há mundo para mim. Eu poderia estar em qualquer lugar, mas eu estaria sempre aqui.

Acordei com um aperto no peito, uma tristeza, um medo estranho do amanhã. Acordei me sentindo uma estrangeira no meu país, uma solitária, uma louca. Lá fora, as buzinas e foguetes me chegam como toque de recolher. Sou uma prisioneira numa prisão de sonhos e raiva. Hoje não é um dia para se expor, me aconselharam. Mas eu preciso me expor. Mesmo que me xinguem. Mesmo que eu apanhe. Em um pequeno gesto de resistência, vesti-me de vermelho, prendi minha bandeirinha do partido na janela no carro, e saí às ruas. Ali, sozinha, indefesa, senti um estranho desejo de luta. Não simbólica. Uma luta física, corporal, selvagem. Um desejo, desnecessário porem sincero, de estar num ringue onde eu, magricela, cairia no primeiro round. O desejo não seria pela vitória. Seria pelo prazer ignóbil de olhar nos olhos de meu adversário e sentir, naquele instante, o ódio que eu, com palavras, não poderia descrever. Não há um rosto a ser encarado. Há um contexto, uma história, uma massa caótica de inversão. E eu desejaria estar ali, diante desta criatura disforme, sentindo em mim toda a raiva necessária para não temer a morte, mesmo sabendo que seria este o meu fim.

quarta-feira, 9 de março de 2016

teste
Querido estranho,

Devo, antes de qualquer coisa, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço, mas temos, em nós, o mesmo passado nas veias.

Tentei escrever-lhe algo tempos atrás, mas os dias passaram e o desejo se perdeu no meio de tantos outros desejos. E hoje vejo o sr, aqui, diante de mim, ao som do tango que o sr tanto gostava, gosta. Não esperava reencontra-lo. Não assim, não aqui. E não posso deixa-lo partir novamente. Não antes de dizer-lhe o que desejei dizer naquele dia em que nos despedimos. Naquele dia, vô, eu estava atrasada. Ia pegar um voo que me levaria para um ano longe do sr. Eu não queria ter saído daquele jeito, correndo, mas foi como foi. Lembro-me do sr deitado naquela cama fria, seu corpo já tao frágil, seu olhar já tao distante...e eu querendo dizer tudo de uma vida em nossos últimos cinco minutos. Não consegui dizer nada, vô. Lembro-me como se estivéssemos agora, nós dois, naquele quarto. O sr. olhou para o lado contrário ao que eu estava, fazendo, com uma das mãos, a despedida. Foi um adeus que eu não pude responder. Não havia nada a fazer a não ser, partir. E parti, com esse dizer engasgado que ainda hoje está em mim.

Vovô querido, o sr, para mim, é você. E que saudade eu sinto de você. Nunca conheci alguém que pudesse ter vivido tantas histórias, tantas épocas, tantos sonhos. Para você, bastava querer para que tudo acontecesse. Não havia “porque não”. A vida estava sempre ao seu alcance. Queria ter aprendido a ser assim, tão desprendida. O mundo pegando fogo e você andando daquele seu jeitinho, no ritmo do relógio. Do seu relógio. Porque, no meu, o tempo passa em segundos. No seu eu não sei, vô. Em segundos não é. De você guardo boas lembranças. Muitas delas eu inventei dos causos que ouvi. Outras, são as da neta silenciosa que observava atenta a sua maneira de ser e de ler as pessoas. Você não as lia. Você as aceitava. Nunca ouvi, de você, uma reclamação, uma crítica severa, uma disse-não-disse. A vida dos outros simplesmente não te interessava. Não por você se considerar maior do que tudo isso, mas, tão somente, por isso não fazer diferença alguma. Você sempre foi tão livre...tão você. E, sendo você, nós também podíamos ser o que éramos. E isso era tão bom...

(...)

Sabe, vô, naquele dia em que nos despedimos, eu quis te abraçar. Pensei que poderia ter dito o que não disse durante os anos em que estivemos juntos. Mas percebo, agora, que eu só queria te abraçar. Eu sabia que não nos veríamos mais. Dizer o que então? Você estava certo em não querer se despedir. Não há despedida que acalente quem está partindo. Não importa para onde esteja indo... Vô, eu sinto mesmo saudades de você...

Devo, novamente, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço. O que temos nas veias são passados que não se cruzam. (...) E obrigada por ser o meu avô que já não pode mais o ser.

Com amor,
Ana

terça-feira, 8 de março de 2016

Ele dizia que ela não era uma mulher de verdade. Uma mulher de verdade não chora por bobagens como aquelas que ela chora. Não se sente insegura quando os motivos dela não são os motivos dele. Não ri de coisas sérias. Não usa all star. Não. Uma mulher de verdade sabe sempre o que fazer e como deve se portar. Sim, porque uma mulher de verdade deve sempre se portar da maneira que os outros esperam. Ela deve ser sociável. Amável com quem a desrespeita. Simpática com quem a desagrada. Ela deve sempre estar alegre e disposta a ser a companhia que todos querem perto. Ela deve ser doce. Delicada. Deve gostar de crianças e de bichos. E deve sentir-se satisfeita com o pouco que recebe.

Ela chorou quando ouviu, do homem que amava, essas palavras. Sem razão. Eram, como ele dizia, apenas bobagens.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Às vezes, muitas vezes, me pego inventando teorias para explicar os meus próprios preconceitos. Nesse momento, esqueço qualquer tipo de rigor teórico ou lógico e, rapidamente, convenço-me com os mais fracos e infundados argumentos. Ao outro não cabe defesa. Convido-o a uma batalha injusta que se inicia com o desfecho concluído. Poderia, talvez, desculpar-me na esperança de uma redenção. Mas, se nem culpa sinto, resta-me viver com este limite que, conscientemente, imponho-me.
O pombo não vê o garoto. Ele caminha. Projeta a cabeça para frente e para trás no ritmo do mover de suas delicadas pernas, marcando, na fina areia, pegadas de flores. Ele cisca. Passeia de um lado ao outro procurando tudo aquilo que pode encontrar. Mas não encontra o garoto.

O garoto não vê o mar, o sol ou as coxas que, a sua frente, desfilam alinhadas. Ele vê o pombo e, achando que o pombo o vê, passa seu tempo observando uma tentativa de invasão de esteira que não ocorre.

O mar está bonito. Mas não há quem veja o mar.
A preguiça é assim. Um sofá fofinho daqueles que te engolem inteira. Uma brisa fresca num dia ensolarado. O pé descalço depois de uma longa caminhada. O corpo na cama quando os olhos se fecham sem avisar. Não sei se é doença, falta de remédio ou herança de família. Mas, contra ela, já cansei de lutar. Ela chega de mansinho, se enrosca em mim como um rabo de gato pedindo carinho. E, então, esqueço o convite, a necessidade, a roda de samba. Neste momento, nada me parece mais prazeroso e festivo que um cantinho silencioso onde eu possa escutar os meus próprios pensamentos.
Comecei a amar antes de pensar sobre o amor. Não era um corpo, o que eu amava. Ou uma inteligência. Era ele, o próprio substantivo do verbo. Eu era pequena. Tão pequena que, para o outro, o amor me seria impossível. Facilmente confundido pela pura e legítima necessidade do afeto. Mas aquela que era eu, começou a entender o amor pelas histórias que lhe eram contadas minutos antes de dormir. Era o amor que lhe era contato. As histórias, muitas delas, eram de príncipes e princesas. E o final era feliz. O amor, ali, acontecia como acontece qualquer evento que nos escapa. Era um terremoto, uma enchente, a chegada de uma estação. Bastava, para isto, duas pessoas e a certeza de que eram feitos um para o outro. As histórias acabavam quando, enfim, encontravam-se. Elas não contavam o que vinha depois. Contavam que o amor existia. Que o amor era possível. Que era fácil. Mas não contavam o que vinha depois. E não contavam, também, que um dia ele poderia acabar. E foi neste amor que acreditei quando era pequena. Foi este amor que me ensinou a amar. Errado. Porque, ainda hoje, me pego sonhando acordada, acreditando que qualquer amor é possível, que qualquer pessoa se ama, bastando, para isto, o desejo do amor.
O bloqueio criativo é uma massa densa, úmida, incolor, que brota no bulbo capilar e escorre, lentamente, por cada fio de cabelo, cada pelo, cada poro. Não cessa. Escorre, molhando cada pedaço de pele, de corpo. Entra nos ouvidos, nas narinas, nas saias, criando um entra e sai ininterrupto que, depois de alguns minutos, ou horas, ou dias, torna-se cola que cola os cílios, depois as pálpebras, os dedos, a boca. Já não sentimos mais. Apenas nos angustiamos percebendo o enrijecer dos músculos, do sangue, das articulações. Paralisados, acreditamos ser este o nosso último dia ou o primeiro de um infinito outro dia que preferíamos esquecer.
Ele era baixo. Calvo. Parecia cansado. Não eram os anos, mas as memórias. Não tinha muitas e, as que tinha, não pareciam dele. Naquele dia, como de costume, acordou ao tocar do despertador. Seis horas. Abriu os olhos, sentou-se, encostou os pés no solo frio, reclamou alguma coisa em baixa voz e, assim, deu início a mais um dia de existência. Banho, roupa, café. E partiu ao trabalho, aquele, o mesmo de quinze anos atrás. Fez o que sabia fazer. E o dia continuou como continuaram tantos outros dias. Reuniões, almoços, leituras, sites de notícia, solidão. Nada que não pudesse suportar. Vivia do desejo não realizado, da felicidade não alcançada, dos sonhos não imaginados. Vivia de suas imagens da infância, da saudade do amor, das canções que sua mãe cantava baixinho enquanto passava com ferro quente seu uniforme de escola.
Tão únicos são os outros. Somos nós. E tão iguais. As mesmas dores, os mesmos medos, os mesmos anseios. Uns desejam hoje, outros, amanhã. Mas é o mesmo desejo a nos trazer o sonho de tornarem-se um dia. Os corpos. Também os mesmos. Gordos, magros, peludos, lisos, infantis, envelhecidos. Os mesmos. Todos, ao seu modo, oferecendo seu outro. Querendo ser um outro que será o mesmo a desejar ser outro. Tudo uma repetição. Os dias. Uma repetição. Casa, trabalho, família, eventos sociais. Os mesmos. As mesmas companhias. Os sorrisos. Os beijos. As conversas que não chegarão a lugar algum. As curiosidades falsas para apagar o silêncio. As respostas que nos parecem novas, mas não são. Não são nada. São as mesmas respostas de ontem ou de um ano atrás. E, novamente, os sorrisos. Agora risadas sem graça para demonstrar possível interesse por um ser que poderia ser alguém se não fosse ninguém. Não é nada. É só sexo. Todo esse jogo e tempo perdido por sexo. Sexo vazio. Carícias artificiais. Beijos. Mais beijos que não dizem nada. Nem desejo. É só sexo. Ao abrir os olhos, nada. Ninguém. Um sexo sozinho acompanhado. Não telefone no dia seguinte. Ele não lembrará do seu nome, do seu corpo, do seu cheiro. A lembrança é o gozo que, em memória, não passou de um suspiro. Nada. Sempre um eu sozinho.
Passou anos construindo o lugar que seria, um dia, sua morada. Não planejou portas ou janelas, entradas ou saídas. Eram paredes apenas, umas paralelas às outras. Pareciam ser guiadas por sua própria vontade, a vontade das paredes. Porque não pareciam ir muito longe e não pareciam chegar a algum lugar. Mas continuou, tijolo por tijolo, até que, finalmente, deram-se as mãos, perdendo-se, agora ele, entre o início de uma e o fim da outra.
Colecionava memórias. As suas. As dos outros. Compunha, com elas, fantasia de uma beleza inventada. Mas nao eram dela, as memórias. Eram, dela, apenas, as imagens que ela criava e o desejo de te-las como presentes que um dia recebera daqueles que estariam, para sempre, em suas próprias memórias. As dela.
A caixa está fechada. Madeira. A mais barata, disseram. Na parte superior, uma pequena janela, retângulo, vertical. Não respira. A caixa não respira. Entre o dentro e o fora, vidro, sujo. De dentro, vê-se o muro que, se seguido, leva a algum lugar. Lugar de onde vêm os vultos que, turvos, são vistos de dentro também. Mas, de dentro, não se observa. De dentro, vive-se a espera num sobe e desce ininterrupto. A caixa está fechada. E o que ali acontece, é história muda e vazia, sem publicação. Ninguém pergunta. Saber ninguém quer. O que ali acontece é passado antes de acontecer. A caixa está pesada. Leva a aparência, os sonhos. Leva as pastas também, as bengalas, os crachás. E mais sonhos. Encontro-me diante dela. Da caixa. Sou vulto para ela. Passagem. Na ponta dos pés, olho pelo vidro ainda sujo. Abismo. O mesmo abismo que me assombrava nos tempos de escola. O olhar insiste, procurando antever o dentro da caixa. Mas a caixa ali não está. Aguardo o susto de sua chegada. Brusca. Sempre brusca. E, sentindo um frio súbito, salto para trás. Sorrio, lembrando que a surpresa também acontece nas coisas mais previsíveis. A caixa está aberta. Um passo a frente e, logo, estou em casa.
Tinha cama de molas, lençóis egípcios, travesseiros de pena de ganso, camisolas de seda indiana. Mas seus mais belos sonhos ela tinha quando estava onde está agora: na maca fria e dura, nua, à espera do rosto que só se vê os olhos, das mãos que só se sentem lisas, da lâmina que lhe toca quando, enfim, dorme. Dorme pelo efeito catalíptico da substância que a conduz ao sono. Antes foi pelo seio, que julgava pequeno demais. Agora, é pela boca, que, com a idade, ganhou ligeiras marcas de uma personalidade que ela não mais reconhecia. Tire tudo. Alise. Estique. Quero o meu rosto como era no dia em que dei o meu primeiro beijo. Mas você não acha que... Não. Não acho. Quero o meu rosto como o rosto que vejo quando fecho os olhos. Estique. O Doutor não revidou. Fez como o desejado. Fez como o prometido. E, antes do feito, sugeriu: por que não aproveitar o mesmo sono e trocar esses tristes olhos negros por olhos outros que não os seus? E assim o fizeram. Naquele rosto, não mais identificado como jovem ou velho, estava, para sempre, o olhar do outro.

(Fragmento do meu conto “A Outra”, publicado na antologia O Anão que Assoviava e Outros Contos)
A tinta que brota do sonho, cai na folha como extensão minha. Escorre, linha a linha, compondo estruturas sem limites. Escritas, fixam-se como eventos de uma história inventada que vivi. Cada fragmento é um voo de pássaro, preso aos limites e aos desejos da mente inquieta que um dia o criou.



Ela era baixa. Cabelos longos e negros. Tinha o olhar ausente da vida que vivia. Casada, três filhos, todos criados pela avó, sua vizinha. Naquele dia, como de costume, acordou com o choro do caçula. O filho que podia ser de outra, que ela não sonhou, o filho que ela pensou deixar na maternidade logo após o exaustivo e indesejado parto. E era esta a memória que, dia após dia, a fazia levantar-se às pressas para interromper a agonia daquele ser faminto. A memória do desgosto. Depois, banho, roupa, café. E o banho, roupa e café do marido, que há quinze anos ela, sistematicamente, preparava. Antes, com ternura. Agora, com a insatisfação que sentem todas as mulheres que preparam o banho, a roupa e o café dos maridos. E partiu ao trabalho, aquele que ela não mais acreditava. Sua fuga. Seu momento consigo. Sua melhor hora do dia.
Queria uma companheira. Ficou sozinho. Não planejava filhos. Teve três. Formou-se em psicologia. Era bancário. Gostava de camarão. Era alérgico.

Aos 35 procurou ajuda. Foi ao circo, ao médico, ao terreiro, aos livros, às drogas. Efeitos à curto prazo. Dormia ele e acordava outro. Ou dormia outro e acordava ele. A esta altura ele já não mais sabia quem era gente e quem era espelho. Não que isto fizesse alguma diferença. Mas ele queria saber. Num dia assim, comum, entre um sábado e uma segunda-feira, diante daquela janela que ele mal alcançava quando tinha os pés do tamanho das mãos, por um instante, pareceu sentir-se. Tocou aquele reflexo, mistura dele com o verde e o azul de fora. Transparente. Rígido. Abriu-o lentamente, fechando os olhos para melhor sentir aquela fresca brisa que lhe era tão real. Respirou cada gomo de vento que fluía para dentro daquele corpo-espelho insatisfeito. Debruçou-se agora, como se pudesse voar. E, deslizando, pouco a pouco, para o concreto que desconhecia, saltou num mergulho de bailarina, esperando quebrar-se para ser, enfim, carne.
A vista de um canudo

Fragmento de paisagem, circular. Um pedaço de árvore. Primeiro, o verde da folha, depois, o caule. Caule, caule e a areia. Paisagem interrompida pela impaciência da vista monocular. Agora, a árvore inteira plantada na praia. E o mar. Ah, o mar! Ele não cabe no canudo. Azul, azul, azul. Não há parte. Cada parte é um inteiro azul. Cada porção é ele todo. Miro, como miravam os descobridores desta terra esquecida. Azul. Em cima, embaixo, pelos lados. Abundância. Como medir o infinito em cinco milímetros de diâmetro? Circular. Uma bola azul. Uma cápsula. Invólucro plástico. Remédio que bebo com os olhos para sair do lugar, para esquecer-me, para ser o criador daquilo que vejo.
Hoje, 18 de setembro, meus pais comemoram seus 38 anos de casamento. Vida de casal, só o casal conhece. Mas vida de filha desse casal, a filha conhece bem. Minha mãe fazia cabanas de lençóis, preparava brigadeiro de colher, curava minhas dores com as mãos, encapava meus cadernos, me defendia diante dos professores (mesmo quando os professores pareciam saber o que falavam). Meu pai jogava comigo ludo e dama, me levava ao parque da cidade, comprava sorvete e diamante negro, me ensinou a dirigir com a maior paciência do mundo, me buscava nas festas de escola às 2 da manhã. Com eles, aprendi a defender as minhas ideias, a respeitar as ideias dos outros, a me divertir com imprevistos, a valorizar as coisas certas. Com eles, aprendi que é possível viver a dois, mesmo com as diferenças, que é preciso tolerância para vivermos melhor, que devemos ser solidários. Se hoje ainda acredito e busco um alguém que possa dividir a sua vida comigo e eu, a minha com ele, é porque eles me fizeram sentir que isso é possível. Gratidão por eu ter, em minha vida, pais que eu escolheria como pais, meus pais, se esta fosse uma escolha possível...

As pessoas não querem envelhecer. Usam cremes. Pintam seus cabelos brancos. Fazem plásticas. Mentem a idade. Soube de uma que dorme de barriga para cima para não acordar com dobras no rosto. Outra que evita dar gargalhadas para não reforçar as marcas de expressão. Não entendo bem o porquê de tanto esforço. Há beleza no tempo em nosso corpo. Há verdade nos traços que enfatizam nossa história. Há uma saudade inexplicável no rosto desconhecido que encara a nossa própria velhice. Se há um deus ou um Aladim, peço o seguinte: dê-me sabedoria para que eu viva o passar dos meus anos como vive aquela que é o meu maior exemplo de alguém que está presente naquilo que é. Que está presente naquilo que vive. A minha vovó querida.

É mais ou menos assim. Caem os primeiros pingos de chuva e todo mundo comemora. Começa a chuva e todo mundo reclama. A chuva passa e todo mundo comemora. Começa a seca e todo mundo reclama. E aí me vem um monte de coisas na cabeça. Que bichinho insatisfeito é esse, o ser humano. Às vezes queremos tanto alguma coisa e quando ela chega, chega cheia de poréns. Vamos tentando. Um dia, talvez, a gente aprenda a ver as coisas como são. Como são. Comoção.
Eu tenho uma irmã. E hoje, não sei porque, me deu vontade de dizer o tanto que é bom ter uma irmã assim, como ela. Uma pessoa tão diferente de mim e tão próxima do que eu poderia ser um dia, se eu pudesse escolher quem ser um dia. Uma vez ela me perguntou se seríamos amigas se a vida nos tivesse apresentado como estranhas. Eu não tenho resposta à esta pergunta. Mas, se foi preciso nascermos como irmãs para desenvolvermos esta amizade, que belo presente foi este que recebi. Porque é uma amizade como a nossa que me faz saber o que é ter uma amiga. Porque é uma amizade como a nossa que me faz defender aquela velha ideia de que quando se tem um filho, por ele, poderíamos ter dois. Mas eu não tenho filhos. Se tivesse, gostaria que este filho tivesse a chance de ter em sua vida, assim, para sempre, uma Mariana.

João queria voar. Mas não podia. Não deixaram. Tinha os olhos virados para dentro. A mãe disse: para voar, só olhando o horizonte. O pai disse: para voar, só olhando para depois do horizonte. E, sem saber o que João de fato via, lá estavam eles, o pai e a mãe, deixando o doce e perfumado ramo de flores onde enterravam os sonhos de João.
Eram namorados, ele e ela. E não eram mais crianças. Já conheciam a dor do amor, a solidão, as mentiras, a desilusão. Estavam juntos porque se amavam. Porque o desejo da companhia um do outro era uma necessidade. Porque tinham planos e queriam realiza-los juntos. E, ano após ano, os planos, pouco a pouco, aconteciam. Mas a vida às vezes atropela a gente. E, para eles, deu aquilo que muitos chamam de “presente”. Um filho. Não era ainda um filho. Era um sopro de vida. Uma possibilidade de um ser futuro. Uma mistura dos dois no ventre dela. Isto não estava nos planos. Mas os planos mudam. Às vezes. Para ele mudou. Para ela não. Ela não era mãe. Não queria ser mãe. E não seria. Não agora. E não ser mãe era uma decisão tomada.

Disseram, para ela, que mãe é quem cria. Mas, depois de parir, seria possível esquecer aquela criatura que ela não conseguia definir como outra coisa que não seu filho?
Ela sempre quis ser mergulhadora. Mas, aos 17 anos, precisou escolher entre medicina e direito. Escolheu qualquer um porque, mesmo na diferença, eram, para ela, iguais. Depois dos anos de estudo e dos incansáveis plantões, começou a gostar daquilo. Não sei se por hábito ou se por começar a acreditar no que os outros diziam, que ela era feliz. Ela parecia mesmo feliz.

Casa de frente para o mar, filhos nas melhores escolas, marido carinhoso. Mas, se era feliz ou não, só ela sabia.

Um dia, ao chegar em casa, viu, pela primeira vez, aquela janela. Aquela grande janela com vista para o mar. Naquele dia, ela viu a janela e viu o mar. Quis pular. Mas o desejo não era pela queda. Não pulou.

Agora, de costas para a janela, viu seus filhos, seus pais, seu casamento, a viagem de férias do ano passado. Tudo ali, encima da mesa. Rostos estáticos, paisagens raras. Rostos e paisagens desconhecidos. Como ser uma outra sendo ela o que é agora? Como começar se, no caminho que percorreu, ela já está no meio? Como interromper o cotidiano com o improvável?
O começo

É difícil ficar fora das redes sociais quando algumas pessoas parecem ter suas vidas apenas ali. Não por ser esta a escolha delas. Nem a minha. Mas, tão somente, por serem, estes, os momentos possíveis de encontros entre eu e elas. “Mas assim escolheram”, dirão alguns. E então me pergunto sobre os limites das nossas escolhas se somos, a todo instante, atropelados pelas necessidades e exigências de uma vida mais ou menos razoável, onde o tempo é preenchido pelo trabalho e pelo cansaço. Gostaria de estar mais presente. Com minha família. Com meus amigos. Comigo. Gostaria de ler o que gosto. De ir ao cinema numa quarta-feira à tarde. De desligar o despertador quando a noite foi um pouco mais longa do que de costume. Gostaria de poder beber mais do que o permitido numa sexta-feira de feijoada. De deitar na grama da esplanada para ver o pôr do sol. Gostaria de ver o pôr do sol. E de ligar para você te convidando para fazer tudo isso comigo. Porque tem tempo que a gente não se vê. Porque eu queria outras notícias suas além dessas que você publica. Porque eu queria saber se esse sorriso seu está aí, estampado, ou se doeu para ser fotografado. Eu queria rir com você. Queria te contar algumas histórias minhas também. Alguns medos que tenho tido. Queria um conselho seu sobre um assunto aí que estou meio sem jeito de comentar... Mas como fazer coincidir o meu tempo com você com o seu tempo comigo? E então ficamos por aqui.... plantando desejo e vendo crescer a saudade....