terça-feira, 22 de março de 2016
domingo, 13 de março de 2016
Hoje, não há mundo para mim. Eu poderia estar em qualquer lugar, mas eu estaria sempre aqui.
Acordei com um aperto no peito, uma tristeza, um medo estranho do amanhã. Acordei me sentindo uma estrangeira no meu país, uma solitária, uma louca. Lá fora, as buzinas e foguetes me chegam como toque de recolher. Sou uma prisioneira numa prisão de sonhos e raiva. Hoje não é um dia para se expor, me aconselharam. Mas eu preciso me expor. Mesmo que me xinguem. Mesmo que eu apanhe. Em um pequeno gesto de resistência, vesti-me de vermelho, prendi minha bandeirinha do partido na janela no carro, e saí às ruas. Ali, sozinha, indefesa, senti um estranho desejo de luta. Não simbólica. Uma luta física, corporal, selvagem. Um desejo, desnecessário porem sincero, de estar num ringue onde eu, magricela, cairia no primeiro round. O desejo não seria pela vitória. Seria pelo prazer ignóbil de olhar nos olhos de meu adversário e sentir, naquele instante, o ódio que eu, com palavras, não poderia descrever. Não há um rosto a ser encarado. Há um contexto, uma história, uma massa caótica de inversão. E eu desejaria estar ali, diante desta criatura disforme, sentindo em mim toda a raiva necessária para não temer a morte, mesmo sabendo que seria este o meu fim.
Acordei com um aperto no peito, uma tristeza, um medo estranho do amanhã. Acordei me sentindo uma estrangeira no meu país, uma solitária, uma louca. Lá fora, as buzinas e foguetes me chegam como toque de recolher. Sou uma prisioneira numa prisão de sonhos e raiva. Hoje não é um dia para se expor, me aconselharam. Mas eu preciso me expor. Mesmo que me xinguem. Mesmo que eu apanhe. Em um pequeno gesto de resistência, vesti-me de vermelho, prendi minha bandeirinha do partido na janela no carro, e saí às ruas. Ali, sozinha, indefesa, senti um estranho desejo de luta. Não simbólica. Uma luta física, corporal, selvagem. Um desejo, desnecessário porem sincero, de estar num ringue onde eu, magricela, cairia no primeiro round. O desejo não seria pela vitória. Seria pelo prazer ignóbil de olhar nos olhos de meu adversário e sentir, naquele instante, o ódio que eu, com palavras, não poderia descrever. Não há um rosto a ser encarado. Há um contexto, uma história, uma massa caótica de inversão. E eu desejaria estar ali, diante desta criatura disforme, sentindo em mim toda a raiva necessária para não temer a morte, mesmo sabendo que seria este o meu fim.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Querido estranho,
Devo, antes de qualquer coisa, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço, mas temos, em nós, o mesmo passado nas veias.
Tentei escrever-lhe algo tempos atrás, mas os dias passaram e o desejo se perdeu no meio de tantos outros desejos. E hoje vejo o sr, aqui, diante de mim, ao som do tango que o sr tanto gostava, gosta. Não esperava reencontra-lo. Não assim, não aqui. E não posso deixa-lo partir novamente. Não antes de dizer-lhe o que desejei dizer naquele dia em que nos despedimos. Naquele dia, vô, eu estava atrasada. Ia pegar um voo que me levaria para um ano longe do sr. Eu não queria ter saído daquele jeito, correndo, mas foi como foi. Lembro-me do sr deitado naquela cama fria, seu corpo já tao frágil, seu olhar já tao distante...e eu querendo dizer tudo de uma vida em nossos últimos cinco minutos. Não consegui dizer nada, vô. Lembro-me como se estivéssemos agora, nós dois, naquele quarto. O sr. olhou para o lado contrário ao que eu estava, fazendo, com uma das mãos, a despedida. Foi um adeus que eu não pude responder. Não havia nada a fazer a não ser, partir. E parti, com esse dizer engasgado que ainda hoje está em mim.
Vovô querido, o sr, para mim, é você. E que saudade eu sinto de você. Nunca conheci alguém que pudesse ter vivido tantas histórias, tantas épocas, tantos sonhos. Para você, bastava querer para que tudo acontecesse. Não havia “porque não”. A vida estava sempre ao seu alcance. Queria ter aprendido a ser assim, tão desprendida. O mundo pegando fogo e você andando daquele seu jeitinho, no ritmo do relógio. Do seu relógio. Porque, no meu, o tempo passa em segundos. No seu eu não sei, vô. Em segundos não é. De você guardo boas lembranças. Muitas delas eu inventei dos causos que ouvi. Outras, são as da neta silenciosa que observava atenta a sua maneira de ser e de ler as pessoas. Você não as lia. Você as aceitava. Nunca ouvi, de você, uma reclamação, uma crítica severa, uma disse-não-disse. A vida dos outros simplesmente não te interessava. Não por você se considerar maior do que tudo isso, mas, tão somente, por isso não fazer diferença alguma. Você sempre foi tão livre...tão você. E, sendo você, nós também podíamos ser o que éramos. E isso era tão bom...
(...)
Sabe, vô, naquele dia em que nos despedimos, eu quis te abraçar. Pensei que poderia ter dito o que não disse durante os anos em que estivemos juntos. Mas percebo, agora, que eu só queria te abraçar. Eu sabia que não nos veríamos mais. Dizer o que então? Você estava certo em não querer se despedir. Não há despedida que acalente quem está partindo. Não importa para onde esteja indo... Vô, eu sinto mesmo saudades de você...
Devo, novamente, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço. O que temos nas veias são passados que não se cruzam. (...) E obrigada por ser o meu avô que já não pode mais o ser.
Com amor,
Ana
Devo, antes de qualquer coisa, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço, mas temos, em nós, o mesmo passado nas veias.
Tentei escrever-lhe algo tempos atrás, mas os dias passaram e o desejo se perdeu no meio de tantos outros desejos. E hoje vejo o sr, aqui, diante de mim, ao som do tango que o sr tanto gostava, gosta. Não esperava reencontra-lo. Não assim, não aqui. E não posso deixa-lo partir novamente. Não antes de dizer-lhe o que desejei dizer naquele dia em que nos despedimos. Naquele dia, vô, eu estava atrasada. Ia pegar um voo que me levaria para um ano longe do sr. Eu não queria ter saído daquele jeito, correndo, mas foi como foi. Lembro-me do sr deitado naquela cama fria, seu corpo já tao frágil, seu olhar já tao distante...e eu querendo dizer tudo de uma vida em nossos últimos cinco minutos. Não consegui dizer nada, vô. Lembro-me como se estivéssemos agora, nós dois, naquele quarto. O sr. olhou para o lado contrário ao que eu estava, fazendo, com uma das mãos, a despedida. Foi um adeus que eu não pude responder. Não havia nada a fazer a não ser, partir. E parti, com esse dizer engasgado que ainda hoje está em mim.
Vovô querido, o sr, para mim, é você. E que saudade eu sinto de você. Nunca conheci alguém que pudesse ter vivido tantas histórias, tantas épocas, tantos sonhos. Para você, bastava querer para que tudo acontecesse. Não havia “porque não”. A vida estava sempre ao seu alcance. Queria ter aprendido a ser assim, tão desprendida. O mundo pegando fogo e você andando daquele seu jeitinho, no ritmo do relógio. Do seu relógio. Porque, no meu, o tempo passa em segundos. No seu eu não sei, vô. Em segundos não é. De você guardo boas lembranças. Muitas delas eu inventei dos causos que ouvi. Outras, são as da neta silenciosa que observava atenta a sua maneira de ser e de ler as pessoas. Você não as lia. Você as aceitava. Nunca ouvi, de você, uma reclamação, uma crítica severa, uma disse-não-disse. A vida dos outros simplesmente não te interessava. Não por você se considerar maior do que tudo isso, mas, tão somente, por isso não fazer diferença alguma. Você sempre foi tão livre...tão você. E, sendo você, nós também podíamos ser o que éramos. E isso era tão bom...
(...)
Sabe, vô, naquele dia em que nos despedimos, eu quis te abraçar. Pensei que poderia ter dito o que não disse durante os anos em que estivemos juntos. Mas percebo, agora, que eu só queria te abraçar. Eu sabia que não nos veríamos mais. Dizer o que então? Você estava certo em não querer se despedir. Não há despedida que acalente quem está partindo. Não importa para onde esteja indo... Vô, eu sinto mesmo saudades de você...
Devo, novamente, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço. O que temos nas veias são passados que não se cruzam. (...) E obrigada por ser o meu avô que já não pode mais o ser.
Com amor,
Ana
terça-feira, 8 de março de 2016
Ele dizia que ela não era uma mulher de verdade. Uma mulher de verdade não chora por bobagens como aquelas que ela chora. Não se sente insegura quando os motivos dela não são os motivos dele. Não ri de coisas sérias. Não usa all star. Não. Uma mulher de verdade sabe sempre o que fazer e como deve se portar. Sim, porque uma mulher de verdade deve sempre se portar da maneira que os outros esperam. Ela deve ser sociável. Amável com quem a desrespeita. Simpática com quem a desagrada. Ela deve sempre estar alegre e disposta a ser a companhia que todos querem perto. Ela deve ser doce. Delicada. Deve gostar de crianças e de bichos. E deve sentir-se satisfeita com o pouco que recebe.
Ela chorou quando ouviu, do homem que amava, essas palavras. Sem razão. Eram, como ele dizia, apenas bobagens.
Ela chorou quando ouviu, do homem que amava, essas palavras. Sem razão. Eram, como ele dizia, apenas bobagens.
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