quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ano novo. Amanheço com os primeiros raios de sol que invadem delicadamente a fratura imperceptível de minhas pupilas. Descolo meus cílios, embaraçados na noite anterior. Vejo cada pedaço de cor que decora um cômodo que não reconheço. Não sei o que vejo. Colo-os novamente, cílio a cílio, refazendo, em imagens que controlo, o percurso que fiz no ano anterior: porta de entrada, banheiro, quarto. O mesmo quarto que me engole para a corriqueira e frequente passagem dos dias. Estou em casa. Por um instante, estou em casa. Abrirei os olhos e continuarei aqui. Cadeira estreita, mesa alta, fotografias nas prateleiras da estante de livros que não me interessam. A cama que me acolhe não me conforta, não tem o meu cheiro, nem o meu tamanho; não é minha. Meu corpo pesa cem quilos e demoro alguns minutos para conseguir equilibra-lo numa simples posição de sentar. Não sei como andar com esse corpo que me cobre os ossos. Não me lembro dessa pele clara, desses pelos brancos, dessa pele flácida que me pesa tanto. Passo a passo, tento me aproximar da janela com vista para o mar. Mas estamos no térreo e alcanço apenas uma criança nua que brinca com uma pipa que não sai do lugar. Observo, pelo vidro que me separa da criança, cada centímetro dessa paisagem que me é estranha e, depois de algumas horas, com o sol subindo, posso ver o rosto que o vidro reflete. Sou eu. A de ontem. Hoje.
Não sei mais quem eu sou. Às vezes, penso que sou você. Comemos a mesma comida, vestimos as mesmas roupas, falamos a mesma língua, dormimos na mesma cama. Você me admira. E, quanto mais distante estou daquilo que eu poderia ser, mais você me admira. Porque, para você, ser alguém, é ser uma invenção sua. Sou a sua história. A história que você conta de mim. E comigo você brinca como brinca com os meus irmãos, com os meus filhos, com os meus pais. Sou a sua história. A história que você recorta de uma outra história que você finge não ver. Tem lixo. Tem seio. Tem criança pelada brincando de bola. Tem sol sem cara de deus. Tem graça vestida de mato. Tem palavra de gente. Uma gente que não precisa de você. Então você se transveste para ser essa gente. Mas não há tinta que tinja o seu anseio de transvestir o meu mundo no sonho que você sonhou quando acreditava que o possível só cabia em seu próprio desejo.
Caminho como uma criança tentando equilibra-se no meio-fio. Com o pé direito, toco o que seria, para você, o nosso universo comum. Sou sã. Com o esquerdo, provoco meus delirantes instintos, inaceitáveis àqueles que negam suas próprias perversões. Você me observa através da película invisível que há entre o prazer fácil do riso e o pavor que sente colocando-se, então, em meu lugar. Mas este lugar é o meu lugar. Desejo. Violência. Gozo. Preciso da sua permissão para ser o avesso do que você aprendeu a aceitar? O gato ri.

domingo, 17 de julho de 2016

O que tenho do mundo é vento numa redoma de sabão. Não há verdade ou coerência possível que sustente o sentido da matéria num espaço/tempo invisível na cronologia da existência das coisas. Flutua, frágil e delicada, a pseudo consciência do que que sabemos que somos. E, embriagados em nossas certezas, dissolvemo-nos no instante em que, próximos a elas, estamos.


terça-feira, 12 de julho de 2016

Sonhei que você me procurava naquele jardim de árvores plantadas no tempo. Eram muitas. Uma para cada memória que eu tinha de você. Você me procurava e eu me escondia para te provocar. Eu sabia que você tinha pressa. Você corria chamando o meu nome como se fôssemos crianças numa quarta-feira qualquer. Eu sorria vendo você voar como um anjo com os pés no chão e o corpo frio que transmutava a paisagem à medida que a tocava com seus longos dedos de veludo branco. Você era cinza com dedos de veludo branco. Você era cinza e coloria de cinza tudo o que eu via ao redor de você. Você não queria mais brincar. Chamava o meu nome mas parecia cansada. Sentou-se no solo que te fazia árvore. Corri tentando te alcançar, dizendo “estou aqui”. Quis te abraçar, mas seus pés já eram raízes, seu corpo, terra. Restavam-me, apenas, seus olhos de bola de gude.