terça-feira, 31 de maio de 2016

A vida é uma sucessão de sonhos e desilusões. O que dela sai de concreto, é desejo de uma materialidade fugaz; forma possível que cristaliza aquilo que queremos eterno. Não há eterno. Há a transitoriedade que, muitas vezes, nos parece intolerável. Vivemos nesse meio termo, nesse espaço de mudança que tentamos organizar, nesse perder o que temos porque nada é nosso, nesse proteger o que não se protege ou planejar o que não depende de nós. A vida é um eterno regresso ao que nunca conseguimos superar.


sábado, 21 de maio de 2016

Clarice Lispector dizia que sua arte não precisava ser entendida. Era uma questão de sentir. Tocava ou não tocava. A arte de Renato Alvim, toca. Seus personagens parecem revelar o que, da tristeza, vemos belo. Olhares que não nos encontram, que olham mas não veem. São olhares para dentro de uma criatura de tinta carregada de existência humana. Alguns sofrem a falta de um passado que já não mais reconhecem. Outros, desanimados, vivem seus dias esperando um fim. Na tela, sentimos a chegada lenta da desilusão.

O homem com o bombo me conta a história de sua filha, única filha, desaparecida ainda jovem. Espera, há anos, sua visita. Dela, do marido, de seus filhos. Sentaria naquele velho sofá, o mesmo de sua infância, para escutar seus dias que ele não pôde acompanhar. Fecharia seus olhos, já tão cansados, e dormiria com sorriso nos lábios.

A mulher na praia não vê o mar. Sente sua fria brisa despenteando seus cabelos e permanece ali, imóvel e indiferente à imensidão do azul que acolhe. O que pensa esta mulher que parece deslocada no mundo? O que espera encontrar olhando para o lado oposto ao do desejo?

A criança, olha o gato brincando com uma bola de lã. Sua mãe arruma-lhe novamente o vestido, impecável, que ganhara horas antes. Mas a criança não percebe a mãe. O gato ainda brinca com a bola de lã.

Cada personagem parece deslocar-se para um universo íntimo e intenso, inacessível à superficialidade do corpo. A cena interrompe o fluxo do tempo, tornando o momento contínuo em sua estaticidade. Não há diálogo possível ou necessário.  Há o contato e o interesse em descobrir as histórias desses personagens que indicam ter vida própria. Seu criador, não mais ali está. Deu-lhes o necessário para continuarem sua própria trajetória que, hoje, parecem a minha em vidas outras que não pude viver. 





domingo, 15 de maio de 2016

Gosto das pausas. Aquelas que não anunciam a sua chegada. Momentos breves e despretensiosos que nos salvam da exaustão. Pode ser um convite, um olhar, uma gentileza. Pode ser o casal que desconheço, o vento na pele, uma bolha de sabão. Hoje, foi ele, o rapaz. Entre carros, motos e fúria, entre pressa, desânimo e dor, o rapaz fotografa a árvore. Sozinho, naquele instante, sente que o mundo todo cabe naquela pequena e insignificante pétala cor-de-rosa que o leva para a menor distância possível entre o que sabe de si e o que não cansa de buscar. É um flash. Uma experiência de felicidade que dura uma vida inteira num milésimo de segundo.