Clarice Lispector dizia que sua arte não precisava ser entendida. Era uma questão de sentir. Tocava ou não tocava. A arte de Renato Alvim, toca. Seus personagens parecem revelar o que, da tristeza, vemos belo. Olhares que não nos encontram, que olham mas não veem. São olhares para dentro de uma criatura de tinta carregada de existência humana. Alguns sofrem a falta de um passado que já não mais reconhecem. Outros, desanimados, vivem seus dias esperando um fim. Na tela, sentimos a chegada lenta da desilusão.
O homem com o bombo me conta a história de sua filha, única filha, desaparecida ainda jovem. Espera, há anos, sua visita. Dela, do marido, de seus filhos. Sentaria naquele velho sofá, o mesmo de sua infância, para escutar seus dias que ele não pôde acompanhar. Fecharia seus olhos, já tão cansados, e dormiria com sorriso nos lábios.
A mulher na praia não vê o mar. Sente sua fria brisa despenteando seus cabelos e permanece ali, imóvel e indiferente à imensidão do azul que acolhe. O que pensa esta mulher que parece deslocada no mundo? O que espera encontrar olhando para o lado oposto ao do desejo?
A criança, olha o gato brincando com uma bola de lã. Sua mãe arruma-lhe novamente o vestido, impecável, que ganhara horas antes. Mas a criança não percebe a mãe. O gato ainda brinca com a bola de lã.
Cada personagem parece deslocar-se para um universo íntimo e intenso, inacessível à superficialidade do corpo. A cena interrompe o fluxo do tempo, tornando o momento contínuo em sua estaticidade. Não há diálogo possível ou necessário. Há o contato e o interesse em descobrir as histórias desses personagens que indicam ter vida própria. Seu criador, não mais ali está. Deu-lhes o necessário para continuarem sua própria trajetória que, hoje, parecem a minha em vidas outras que não pude viver.


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