quarta-feira, 9 de março de 2016

Querido estranho,

Devo, antes de qualquer coisa, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço, mas temos, em nós, o mesmo passado nas veias.

Tentei escrever-lhe algo tempos atrás, mas os dias passaram e o desejo se perdeu no meio de tantos outros desejos. E hoje vejo o sr, aqui, diante de mim, ao som do tango que o sr tanto gostava, gosta. Não esperava reencontra-lo. Não assim, não aqui. E não posso deixa-lo partir novamente. Não antes de dizer-lhe o que desejei dizer naquele dia em que nos despedimos. Naquele dia, vô, eu estava atrasada. Ia pegar um voo que me levaria para um ano longe do sr. Eu não queria ter saído daquele jeito, correndo, mas foi como foi. Lembro-me do sr deitado naquela cama fria, seu corpo já tao frágil, seu olhar já tao distante...e eu querendo dizer tudo de uma vida em nossos últimos cinco minutos. Não consegui dizer nada, vô. Lembro-me como se estivéssemos agora, nós dois, naquele quarto. O sr. olhou para o lado contrário ao que eu estava, fazendo, com uma das mãos, a despedida. Foi um adeus que eu não pude responder. Não havia nada a fazer a não ser, partir. E parti, com esse dizer engasgado que ainda hoje está em mim.

Vovô querido, o sr, para mim, é você. E que saudade eu sinto de você. Nunca conheci alguém que pudesse ter vivido tantas histórias, tantas épocas, tantos sonhos. Para você, bastava querer para que tudo acontecesse. Não havia “porque não”. A vida estava sempre ao seu alcance. Queria ter aprendido a ser assim, tão desprendida. O mundo pegando fogo e você andando daquele seu jeitinho, no ritmo do relógio. Do seu relógio. Porque, no meu, o tempo passa em segundos. No seu eu não sei, vô. Em segundos não é. De você guardo boas lembranças. Muitas delas eu inventei dos causos que ouvi. Outras, são as da neta silenciosa que observava atenta a sua maneira de ser e de ler as pessoas. Você não as lia. Você as aceitava. Nunca ouvi, de você, uma reclamação, uma crítica severa, uma disse-não-disse. A vida dos outros simplesmente não te interessava. Não por você se considerar maior do que tudo isso, mas, tão somente, por isso não fazer diferença alguma. Você sempre foi tão livre...tão você. E, sendo você, nós também podíamos ser o que éramos. E isso era tão bom...

(...)

Sabe, vô, naquele dia em que nos despedimos, eu quis te abraçar. Pensei que poderia ter dito o que não disse durante os anos em que estivemos juntos. Mas percebo, agora, que eu só queria te abraçar. Eu sabia que não nos veríamos mais. Dizer o que então? Você estava certo em não querer se despedir. Não há despedida que acalente quem está partindo. Não importa para onde esteja indo... Vô, eu sinto mesmo saudades de você...

Devo, novamente, desculpar-me por impor-lhe esta leitura. O sr. não me conhece, eu não o conheço. O que temos nas veias são passados que não se cruzam. (...) E obrigada por ser o meu avô que já não pode mais o ser.

Com amor,
Ana

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