Ela sempre quis ser mergulhadora. Mas, aos 17 anos, precisou escolher entre medicina e direito. Escolheu qualquer um porque, mesmo na diferença, eram, para ela, iguais. Depois dos anos de estudo e dos incansáveis plantões, começou a gostar daquilo. Não sei se por hábito ou se por começar a acreditar no que os outros diziam, que ela era feliz. Ela parecia mesmo feliz.
Casa de frente para o mar, filhos nas melhores escolas, marido carinhoso. Mas, se era feliz ou não, só ela sabia.
Um dia, ao chegar em casa, viu, pela primeira vez, aquela janela. Aquela grande janela com vista para o mar. Naquele dia, ela viu a janela e viu o mar. Quis pular. Mas o desejo não era pela queda. Não pulou.
Agora, de costas para a janela, viu seus filhos, seus pais, seu casamento, a viagem de férias do ano passado. Tudo ali, encima da mesa. Rostos estáticos, paisagens raras. Rostos e paisagens desconhecidos. Como ser uma outra sendo ela o que é agora? Como começar se, no caminho que percorreu, ela já está no meio? Como interromper o cotidiano com o improvável?
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