Tinha cama de molas, lençóis egípcios, travesseiros de pena de ganso, camisolas de seda indiana. Mas seus mais belos sonhos ela tinha quando estava onde está agora: na maca fria e dura, nua, à espera do rosto que só se vê os olhos, das mãos que só se sentem lisas, da lâmina que lhe toca quando, enfim, dorme. Dorme pelo efeito catalíptico da substância que a conduz ao sono. Antes foi pelo seio, que julgava pequeno demais. Agora, é pela boca, que, com a idade, ganhou ligeiras marcas de uma personalidade que ela não mais reconhecia. Tire tudo. Alise. Estique. Quero o meu rosto como era no dia em que dei o meu primeiro beijo. Mas você não acha que... Não. Não acho. Quero o meu rosto como o rosto que vejo quando fecho os olhos. Estique. O Doutor não revidou. Fez como o desejado. Fez como o prometido. E, antes do feito, sugeriu: por que não aproveitar o mesmo sono e trocar esses tristes olhos negros por olhos outros que não os seus? E assim o fizeram. Naquele rosto, não mais identificado como jovem ou velho, estava, para sempre, o olhar do outro.
(Fragmento do meu conto “A Outra”, publicado na antologia O Anão que Assoviava e Outros Contos)
Nenhum comentário:
Postar um comentário