domingo, 28 de fevereiro de 2016

Queria uma companheira. Ficou sozinho. Não planejava filhos. Teve três. Formou-se em psicologia. Era bancário. Gostava de camarão. Era alérgico.

Aos 35 procurou ajuda. Foi ao circo, ao médico, ao terreiro, aos livros, às drogas. Efeitos à curto prazo. Dormia ele e acordava outro. Ou dormia outro e acordava ele. A esta altura ele já não mais sabia quem era gente e quem era espelho. Não que isto fizesse alguma diferença. Mas ele queria saber. Num dia assim, comum, entre um sábado e uma segunda-feira, diante daquela janela que ele mal alcançava quando tinha os pés do tamanho das mãos, por um instante, pareceu sentir-se. Tocou aquele reflexo, mistura dele com o verde e o azul de fora. Transparente. Rígido. Abriu-o lentamente, fechando os olhos para melhor sentir aquela fresca brisa que lhe era tão real. Respirou cada gomo de vento que fluía para dentro daquele corpo-espelho insatisfeito. Debruçou-se agora, como se pudesse voar. E, deslizando, pouco a pouco, para o concreto que desconhecia, saltou num mergulho de bailarina, esperando quebrar-se para ser, enfim, carne.

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