domingo, 28 de fevereiro de 2016
Ela era baixa. Cabelos longos e negros. Tinha o olhar ausente da vida que vivia. Casada, três filhos, todos criados pela avó, sua vizinha. Naquele dia, como de costume, acordou com o choro do caçula. O filho que podia ser de outra, que ela não sonhou, o filho que ela pensou deixar na maternidade logo após o exaustivo e indesejado parto. E era esta a memória que, dia após dia, a fazia levantar-se às pressas para interromper a agonia daquele ser faminto. A memória do desgosto. Depois, banho, roupa, café. E o banho, roupa e café do marido, que há quinze anos ela, sistematicamente, preparava. Antes, com ternura. Agora, com a insatisfação que sentem todas as mulheres que preparam o banho, a roupa e o café dos maridos. E partiu ao trabalho, aquele que ela não mais acreditava. Sua fuga. Seu momento consigo. Sua melhor hora do dia.
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