segunda-feira, 4 de abril de 2016
O poeta Aidenor Aires disse, num de seus versos, que não se acostumava ao morrer cotidiano das coisas. Nisto, somos parecidos. Qualquer traço ou sinal que me traga esta certeza, pode provocar, em mim, sentimentos que parecem ser os únicos que tenho. Pode ser um fio de cabelo branco, um jeito de andar, uma folha seca, uma ponta de lápis quebrada. Pode ser uma borboleta no para-brisas, uma luz queimada, um copo vazio, uma ruga profunda. Mas, de todos eles é, claro, a própria morte, o sinal mais forte e evidente. O mais radical. Falo sobre a morte física. O corpo gelado. Os olhos fechados. O desaparecimento. Quando vem, não há quem me console. Porque sinto-a inteira em mim. Sinto-me quase morta também. E o pedaço de vida que me compõe torna-se a consciência de uma inadequação espaço/tempo que não consigo assimilar. Há dois dias, morri mais uma vez. Ela se chamava Jennifer. Uma companheira de trabalho. 35 anos. Coração. Nesses dois dias conheci uma mulher que, em dois anos de convívio, não existia para mim. Foram inúmeros os relatos amorosos e saudosos que destacavam seu caráter, sua forma de viver a vida, seus valores, seus desejos. Quanto mais eu a conhecia, mais eu parecia conhecer o mundo. Porque ela acabou se tornando o limite que se impõe entre eu e qualquer desconhecido e a semelhança na beleza que temos todos enquanto sujeitos da nossa existência ao olhar do outro.
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